A Calculadora de Risco Cromossômico do Primeiro Trimestre — Saúde Fetal é uma ferramenta de apoio destinada a médicos obstetras, especialistas em Medicina Fetal e profissionais habilitados na realização da ultrassonografia entre 11 e 13 semanas e 6 dias.
A calculadora organiza três elementos relacionados ao risco de aneuploidias fetais:
idade materna;
translucência nucal, ajustada ao comprimento cabeça-nádega;
avaliação ultrassonográfica do osso nasal.
Esses dados são integrados em um escore clínico estruturado, desenvolvido para facilitar a interpretação dos achados e a comunicação do resultado no relatório médico.
A ferramenta não reproduz o algoritmo completo da Fetal Medicine Foundation — FMF e não substitui o rastreamento combinado do primeiro trimestre, o teste pré-natal não invasivo por DNA fetal livre no sangue materno — cfDNA/NIPT, o aconselhamento genético ou os exames diagnósticos invasivos.
A proposta é oferecer uma avaliação clínica organizada quando estão disponíveis os principais marcadores ultrassonográficos do primeiro trimestre, especialmente em situações nas quais o rastreamento bioquímico ou o algoritmo completo da FMF não foi realizado.
A calculadora procura responder a quatro perguntas:
Qual é a referência epidemiológica relacionada à idade materna?
A translucência nucal está adequada para o comprimento fetal?
Qual é a contribuição da idade materna, da TN e do osso nasal para o escore?
O conjunto dos achados apresenta classificação baixa, intermediária ou alta pelo Escore Clínico Saúde Fetal?
A avaliação deve ser realizada quando o comprimento cabeça-nádega — CCN estiver entre 45 e 84 mm, período que corresponde aproximadamente a 11 semanas até 13 semanas e 6 dias.
A medida da translucência nucal deve seguir critérios técnicos padronizados:
obtenção de corte sagital médio;
feto em posição neutra;
magnificação adequada da imagem;
diferenciação entre a pele fetal e a membrana amniótica;
colocação correta dos cálipers;
medida da maior espessura do espaço translúcido nucal.
A qualidade da medida é indispensável, pois pequenas variações podem modificar o percentil calculado e, consequentemente, a pontuação.
A calculadora aceita duas formas excludentes de entrada:
O profissional informa diretamente o CCN em milímetros. A idade gestacional correspondente é estimada pela equação de Robinson e Fleming.
O profissional informa semanas e dias. O sistema estima o CCN correspondente pela inversão da curva de Robinson.
Quando o CCN foi efetivamente medido durante o exame, recomenda-se utilizar a entrada direta pelo CCN, pois a interpretação da translucência nucal é dependente do comprimento fetal observado.
A referência utilizada para a TN é a curva brasileira publicada por França e Murta, baseada em população com cariótipo ou fenótipo normal.
A mediana esperada é calculada pela equação:
Mediana da TN = 0,414 + 0,020 × CCN
O CCN é informado em milímetros e o resultado da TN é expresso em milímetros.
A partir da mediana e da dispersão descrita na publicação, a calculadora estima:
mediana esperada da TN;
percentil da TN;
valor correspondente ao percentil 95;
relação entre a TN observada e a mediana esperada.
A utilização de uma curva relacionada ao CCN é mais adequada do que a adoção de um único ponto de corte, porque a TN apresenta crescimento progressivo com o comprimento fetal.
Idade
Pontos
Menor que 35 anos
0
35 a 37 anos
1
38 a 39 anos
3
40 a 41 anos
4
42 anos ou mais
5
Classificação da TN
Pontos
Abaixo do percentil 75
0
P75 a P89
1
P90 a P94
3
P95 ou superior
5
Avaliação
Pontos
Presente
0
Hipoplásico
3
Ausente
5
Pontuação total
Classificação
0 a 3 pontos
Baixo
4 a 7 pontos
Intermediário
8 pontos ou mais
Alto
Além da pontuação, uma TN igual ou superior a 3,5 mm determina alerta elevado automático, independentemente da soma obtida.
O relatório informa separadamente:
pontos atribuídos à idade materna;
pontos atribuídos ao percentil da TN;
pontos atribuídos ao osso nasal;
soma final;
eventual presença de critério automático;
classificação final do escore.
A calculadora apresenta uma referência numérica relacionada à idade materna para T21, T18 e T13.
Esse número representa apenas o risco epidemiológico relacionado à idade e aparece antes da avaliação dos marcadores ultrassonográficos. Não corresponde ao risco individual final do feto e não deve ser interpretado como conclusão da calculadora.
A prevalência das trissomias depende tanto da idade materna quanto da idade gestacional. Isso ocorre porque parte das gestações afetadas evolui para perda fetal espontânea. A diferença entre o risco no primeiro trimestre e o risco ao nascimento é especialmente relevante para T18 e T13.
Os marcadores ultrassonográficos não são convertidos nesta versão em uma nova probabilidade expressa como “1 em X”, pois isso exigiria distribuições e razões de verossimilhança validadas e específicas para cada trissomia.
O risco de T21, T18 e T13 aumenta com a idade materna. Entretanto, a idade isoladamente apresenta capacidade limitada de rastreamento e não deve ser utilizada como critério único para indicar ou afastar investigação complementar.
No Escore Saúde Fetal, a idade materna é combinada com os achados ultrassonográficos, mas permanece claramente identificada como um componente independente da pontuação.
A TN aumentada está associada a maior prevalência de:
trissomia 21;
trissomia 18;
trissomia 13;
monossomia X;
outras alterações cromossômicas;
cardiopatias congênitas;
síndromes genéticas;
malformações estruturais;
perda fetal.
A TN é um marcador de risco e não um diagnóstico. Mesmo com cariótipo ou cfDNA normal, uma TN significativamente aumentada pode justificar avaliação anatômica detalhada, ecocardiografia fetal e, conforme o contexto, investigação genética adicional.
A ausência do osso nasal é mais frequente em fetos com T21, T18 e T13 do que em fetos euploides.
No estudo de Kagan e colaboradores, o osso nasal estava ausente em aproximadamente:
59,8% dos fetos com T21;
52,8% dos fetos com T18;
45% dos fetos com T13;
2,6% dos fetos euploides na população inicial estudada.
A visualização do osso nasal depende da técnica, do CCN, da TN, da origem étnica e da experiência do examinador. Por isso, o achado deve ser registrado apenas quando a avaliação técnica for adequada.
A categoria “hipoplásico” é utilizada no Escore Clínico Saúde Fetal como achado intermediário. Entretanto, a maior parte dos algoritmos clássicos do primeiro trimestre utiliza predominantemente a classificação presente ou ausente. Essa diferença deve ser considerada na interpretação.
A frequência cardíaca fetal é valorizada nos algoritmos da FMF, particularmente porque:
a T13 tende a apresentar FCF mais elevada;
a T18 tende a apresentar FCF mais baixa;
a T21 pode apresentar elevação mais discreta.
Entretanto, a FCF muda fisiologicamente conforme o CCN e não deve ser interpretada por pontos de corte fixos. Para incorporá-la adequadamente seria necessário calcular o desvio em relação ao valor esperado para a idade gestacional e aplicar uma razão de verossimilhança específica para T21, T18 e T13.
Por esse motivo, a FCF foi excluída da versão atual. Ela poderá ser incorporada futuramente em um modelo bayesiano validado.
Indica ausência de combinação expressiva dos fatores incluídos no escore. Não exclui aneuploidias e não substitui o rastreamento pré-natal oferecido à gestante.
Indica presença de um fator relevante isolado ou combinação moderada de achados. Recomenda-se integrar o resultado com história clínica, exame ultrassonográfico completo, rastreamento bioquímico e/ou cfDNA/NIPT, conforme disponibilidade e decisão compartilhada.
Indica combinação de idade materna e/ou marcadores ultrassonográficos que merece avaliação especializada. O resultado não confirma cromossomopatia, mas pode justificar aconselhamento genético, ultrassonografia especializada e discussão das opções de rastreamento ou diagnóstico.
O Escore Clínico Saúde Fetal é uma ferramenta de apoio desenvolvida para organização e interpretação clínica dos achados. Suas principais limitações são:
não se trata do algoritmo oficial da FMF;
não inclui PAPP-A ou β-hCG livre;
não inclui ducto venoso ou regurgitação tricúspide;
não inclui FCF no cálculo;
não incorpora cfDNA/NIPT;
não calcula risco posterior individualizado por razões de verossimilhança;
a classificação “hipoplásico” do osso nasal não é utilizada de forma uniforme nos algoritmos internacionais;
os pontos e limites do Escore Saúde Fetal ainda não foram submetidos a validação externa prospectiva.
A classificação não deve ser utilizada isoladamente para indicar procedimentos invasivos ou fornecer diagnóstico.
A conduta deve ser individualizada e considerar:
idade gestacional;
idade materna;
qualidade técnica da ultrassonografia;
presença de outras anomalias fetais;
resultados anteriores de rastreamento;
disponibilidade de cfDNA/NIPT;
preferências da gestante;
acesso a aconselhamento genético;
indicação de biópsia de vilo corial ou amniocentese.
Toda gestante deve receber informação sobre as opções de rastreamento e diagnóstico pré-natal, independentemente da idade ou do resultado deste escore.
França LC, Murta CGV. Curva de referência para a medida da translucência nucal na população capixaba. Radiologia Brasileira. 2004;37(6).
Consultar artigo completo na SciELO
Robinson HP, Fleming JEE. A critical evaluation of sonar crown-rump length measurements. British Journal of Obstetrics and Gynaecology. 1975;82:702–710.
Consultar no PubMed
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Consultar no PubMed
Snijders RJM, Sebire NJ, Nicolaides KH. Maternal age and gestational age-specific risk for chromosomal defects. Fetal Diagnosis and Therapy. 1995;10:356–367.
Consultar no PubMed
Wright D, Kagan KO, Molina FS, Gazzoni A, Nicolaides KH. A mixture model of nuchal translucency thickness in screening for chromosomal defects. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2008;31:376–383.
Consultar artigo e DOI
Kagan KO, Wright D, Valencia C, Maiz N, Nicolaides KH. Screening for trisomies 21, 18 and 13 by maternal age, fetal nuchal translucency, fetal heart rate, free β-hCG and pregnancy-associated plasma protein-A. Human Reproduction. 2008;23(9):1968–1975.
Consultar artigo completo
Kagan KO, Cicero S, Staboulidou I, Wright D, Nicolaides KH. Fetal nasal bone in screening for trisomies 21, 18 and 13 and Turner syndrome at 11–13 weeks of gestation. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2009;33:259–264.
Consultar publicação da FMF
Nicolaides KH. Screening for fetal aneuploidies at 11 to 13 weeks. Prenatal Diagnosis. 2011;31:7–15.
Consultar artigo e DOI
Salomon LJ, Alfirevic Z, Da Silva Costa F, et al. ISUOG Practice Guidelines: performance of 11–14-week ultrasound scan. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2023;61:127–143.
Consultar diretriz oficial da ISUOG
American College of Obstetricians and Gynecologists. Current ACOG Guidance: Non-Invasive Prenatal Testing.
Consultar orientação atual do ACOG
Esta calculadora é destinada exclusivamente ao apoio de profissionais de saúde. O resultado representa uma classificação por escore clínico e não constitui diagnóstico, laudo citogenético ou cálculo oficial da Fetal Medicine Foundation.
Resultados baixos não excluem aneuploidias. Resultados intermediários ou altos não confirmam alterações cromossômicas.
As decisões relacionadas a cfDNA/NIPT, biópsia de vilo corial, amniocentese ou outras formas de investigação devem ser tomadas após avaliação médica individualizada e aconselhamento adequado.